Bendita Praga

Fevereiro 22nd, 2007 de Michele Ruaro

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Depois de um retiro no carnaval - como de costume - a base de cama, comidinhas e dvd’s em casa; a vontade de viajar é tamanha que resolvi postar uma matéria sobre o meu sonho feliz de cidade.

Por Giuliano Cedroni

Onde é possível encontrar uma pequena Paris a preços cariocas? Onde mulheres belas, loiras e altas simpatizam com estrangeiros? Onde o Museu do Comunismo fica alojado exatamente em cima do McDonald’s e baladas eletrônicas pipocam em porões de edifícios art nouveau? E, sobretudo, onde mais bebemos com alegria um líquido doce e esverdeado sem temer o dia seguinte? Ora, é simples: Prag, Praha, Prague… Praga.

O mundo pode ter ficado pequeno com a Internet, mas não é sempre que acessamos destinos que mesclam, em doses dignas, história, arquitetura, povo acolhedor, cultura exótica, língua incrivelmente difícil, boas baladas, comida deliciosa, cerveja excelente e uma vibe tranqüila.

Não é à toa que Kafka, Mozart e Lou Reed declararam-se para a capital da antiga Tchecoslováquia, hoje República Tcheca. Até essa transição, marcada pela violência que libertou a Europa oriental do domínio soviético, naquelas bandas foi diferente: liderados por um poeta, estudantes alçaram seu país de décadas de ditadura comunista de forma completamente pacífica, na que ficou conhecida como Revolução de Veludo. Eu sei, parece fantasia, mas assim é Praga, onde a regra é caminhar.

Só assim você vai ver que a dúzia de pontes que corta o limpo rio Vlatava, quando miradas de determinado ângulo, entram num uníssono surreal, harmonioso, como a música clássica local, de excelente qualidade. Mas, se o teu negócio é o improviso, outono é sua época. O Festival Internacional de Jazz de Praga, que sempre acontece quando as folhas caem, já bateu a 30ª edição, o que significa que por aquelas pontes já cruzaram Gato Barbieri, Duke Ellington, Oscar Peterson, Dizzy Gillepsie, Thelonius Monk, Benny Goodman, Dave Brubeck, Wynton Marsalis e uma centena de outros gigantes. É, as pontes de Praga não são fracas…

Absinto muito
Mas, afinal, o que queremos de uma viagem em pleno século 21? Certamente algo que não conseguimos através do surf seco na Internet, dos monólogos a dois no celular, dos encontros fakes no Orkut. Por isso se perder em Praga se faz tão necessário, só assim o acaso entra em cena e nos arranca da falsa segurança proporcionada pela tecnologia. Nem ouse levar seu Blackberry, no máximo o iPod – correndo o risco de perder a trilha sonora da cidade produzida por artistas de rua.

A moeda mais poderosa da única capital européia preservada por Hitler – ele adorava a cidade e recusou-se a bombardeá-la – é o tempo. E por ser inesgotável, num certo sentido, amplia suas opções a outras potências. Quem pode medir sua riqueza com estilo e precisão é o Relógio da Cidade Velha, na magistral Staromestské namestí, a praça Staromestské. É sentar num dos cafés ao ar livre, com uma Pilsner em punho (foi lá que o termo nasceu), e esperar. Pode relaxar, pois quando for a hora certa você saberá. Um sofisticado mecanismo criado pelo relojoeiro-mestre Hanus, no século 15, ativa a cada batida de hora cheia numa verdadeira peça de teatro pontual, com apóstolos e caveiras atuando junto a outros bonecos arcaicos, como o Turco, a Vaidade e a Avareza. Diferentes anéis e ponteiros apontam as horas do dia na Boêmia e o movimento do Sol e da Lua pelos 12 signos do zodíaco, formando um relógio astronômico único. Tanto que, temendo que o relojoeiro construísse obra-prima similar àquela em outras paragens, o rei decidiu por cegar Hanus. E assim foi feito, no melhor estilo tcheco: dor e arte.

E, para os que não suportam a idéia de pisar na terra do próximo sem flertar com o wild side, uma versão legal e autêntica da contravenção. Em Praga o verdadeiro absinto, bebida dos modernistas da década de 1920, proibida no Brasil e na maioria dos países, é vendido em cada balcão da cidade. O “absintismo”, efeito da bebida em quem a consome em largas doses, é a dependência, a hiperexcitação e as alucinações. Bom o bastante pra você? O ritual do fogo com açúcar se faz necessário tão forte é o veneno de Kafka, um dos muitos apreciadores do líquido esverdeado. Sobre a bebida, escreveu: “O absinto torna o coração humano mais carinhoso”. De fato, confere… Ou seria esse o efeito de Praga?

Vai lá:
Praga, Rep. Tcheca
Passagens para o velho continente variam em torno de 1600 dólares e, se puder, escolha chegar de trem à República Tcheca (cerca de 200 euros, de Paris).
www.icprague.com/
www.mastersofrock.cz
www.museumofcommunism.com
www.eurorailways.com

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